Quem aborreceu a adolescência?

Quem aborreceu a adolescência?

Autor(a): Débora Cunha Nunes Miranda
Estudante de Logosofia e  Orientadora educacional do Colégio Logosófico de Goiânia, com mais de 25 anos de experiência docente.

 

Todos nós já fomos adolescentes. O que dessa fase ainda permanece em nossa recordação? Na minha permanecem muitas coisas... Recordo das lutas, das angústias, das dúvidas, das reações, das incompreensões e conflitos sensíveis e, é claro, de muitos fatos e acontecimentos bons e felizes. Mas, por que vivemos tantos dramas e incertezas na fase da adolescência? O que nos falta conhecer para que ela seja vivida com serenidade, segurança e confiança? Adolescência: por que não é fácil passar por ela? Essa talvez seja a etapa mais incompreendida do desenvolvimento humano.

As respostas a essas questões encontrei na Logosofia, ao estudar a conformação biopsicoespiritual do ser humano. Somos seres constituídos por uma parte psicológica, que engloba os sistemas mental e sensível, e por uma parte espiritual, ou espírito, que é “o depositário de nossos bens duradouros e razão de ser de nossa existência consciente”.

O autor da Logosofia ensina que, ao chegarmos na puberdade, há um retraimento natural do espírito. O instinto adquire força, surgem as paixões e o adolescente se vê atraído pela materialidade do mundo. Abrem-se as portas de uma realidade que ele até então desconhecia. Tem agora mais e menos fatores em seu andar pela vida: mais responsabilidades, menos afeto dos responsáveis por ele; mais cobrança e menos compreensão e tolerância frente aos seus erros; mais incertezas e menos respostas e aconselhamento; mais desafios e menos conhecimentos que alimentam sua parte espiritual; mais atividades extraclasse e menos convivência com a família.

É uma realidade que se vê em muitos lares. O adolescente entra na vida, que exige luta e esforço, sem recursos para enfrentá-la. E isso o faz sofrer. Se o papel dos maiores é orientar, acolher e oferecer muito conhecimento, a partir da própria experiência de vida e dos elementos colhidos destas experiências, vemos acontecer muitas vezes um distanciamento dos pais e responsáveis, por não serem capazes de “tolerar” seus modos, atitudes e rebeldia. Frente a essa situação, muitos adultos se portam pior do que os adolescentes, pois criam barreiras e se conduzem pela ideia preconceituosa de que adolescente é difícil mesmo, é coisa da idade. Alguns têm medo de lidar com eles.

Como estudante de Logosofia, mãe de três filhos, e profissional da área de educação, sinto que há muito o que fazer. Muitas experiências e observações colhi ao longo dos anos dessa fase da vida. Meus filhos me ajudaram a experimentá-la bem de perto e, recentemente, aprendi em uma conversa com um filho que não devo considerar pequenos os desafios e dificuldades do adolescente, pois sob a ótica do adulto tudo parece simples de resolver e de vencer, mas para quem vive na pele a experiência não é tão simples assim. Aprendi a cobrar menos e oferecer mais em atenção, diálogo, disponibilidade para ouvir, sendo oportuna para ensinar e aberta para aprender.

A Logosofia orienta que, para conduzir bem essa fase, há que ensinar o adolescente a criar suas próprias defesas mentais e guiá-los para conhecer gradualmente as contingências que devem enfrentar, para que as resolvam pela via natural da reflexão serena dos fatos. Tudo muda ao mudarmos nossa maneira de pensar a respeito dessa fase crítica da vida. Aprendi, ao longo de muitos anos de estudos logosóficos e prática pedagógica, a amar os semelhantes pelo exemplo de amor que meus pais me deram. Ao cultivar esse amor, aprendi também a amar o adolescente, não só os meus, mas todos que passam pela mesma experiência. Por vezes observei meus filhos absorvidos em profundas tristezas diante das incertezas que a vida oferecia, aliados a uma grande oscilação de temperamento, pois é característico da idade uma maior intolerância e resistência aos conselhos e interferências dos mais experientes. Sabendo disso como devemos atuar?

A pedagogia logosófica propõe uma mudança na abordagem e na postura dos adultos em relação aos adolescentes. Quem aborreceu a adolescência, na verdade, não foram os adolescentes! Foram os adultos, pais, professores, pedagogos que, sem o devido conhecimento, tomaram os desafios naturais de uma fase como problemas insuperáveis.

Podemos e devemos mudar esse conceito e a forma de lidar com o adolescente. A adolescência, em um novo olhar, é considerada e conceituada pela Logosofia como uma fase formativa do caráter e preparatória do espírito para a luta. Pensemos então em como temos colaborado para que eles possam se preparar para as lutas. Aprendo no dia a dia, na convivência com crianças e adolescentes, que, quando sou capaz de educar respaldada por forças como o conhecimento e o afeto, tudo fica mais fácil. Cria-se assim o vínculo e se constrói uma ponte de confiança inquebrantável, que precisa ser regada de cuidado, atenção e uma paciência infinita. Não tem muito segredo!

Próximo artigo Seus filhos crescem e os valores permanecem

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